Maconha ajuda ratos a superar trauma

Submetidos ao princípio ativo da planta, animais perderam medo de eventos traumáticos

Por: Marina Verjovsky

Publicado em 31/08/2006 | Atualizado em 20/10/2009

 
Um estudo brasileiro pode engrossar a lista de aplicações terapêuticas do THC, o princípio ativo da maconha. A substância já é usada no Canadá em um remédio contra dores resultantes da esclerose múltipla e em outros dois medicamentos, um nos Estados Unidos e outro no Reino Unido, para conter enjôos durante o tratamento quimioterápico contra o câncer. Agora, uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) mostra que ela pode ser usada para prevenir ou até curar o estresse pós-traumático.

O grupo liderado pelo pesquisador Reinaldo Takahashi concluiu, a partir de testes feitos em ratos, que o estresse e ansiedade provenientes de memórias de medo podem ser combatidos por uma substância chamada de WIN 55212-2, similar ao THC (sigla para tetraidrocanabinol). Os dois compostos ativam os mesmos receptores do cérebro (os canabinóides), mas o WIN 55212-2 é produzido em laboratório, enquanto o THC é encontrado principalmente nas plantas do gênero Cannabis .

Os resultados do estudo, publicados recentemente na revista alemã Psychopharmacology , foram apresentados em um simpósio durante a 21ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), realizada na semana passada em Águas de Lindóia, São Paulo.

Rato usado em experimento da UFSC que mostrou o potencial do THC para combater o estresse pós-traumático (foto: divulgação).

Os pesquisadores colocaram os ratos em uma gaiola especial e emitiram um determinado som durante 10 minutos, que terminava com um segundo de um choque elétrico de baixa intensidade nas patas do animal. Um dia depois, os ratos foram recolocados nas mesmas gaiolas e a sua reação de congelamento (típica expressão de medo e apreensão) foi observada quando o som foi tocado, mesmo sem a presença do choque ao final.

Depois de repetida diversas vezes a segunda etapa do experimento (caracterizada pela ausência do choque), o congelamento dos animais ao som apresentado diminuiu gradualmente. Os ratos que receberam injeções com substâncias que bloquearam seus receptores para o THC demoraram mais tempo para perder esse medo. Já os que receberam doses da substância similar ao THC perderam o medo mais rapidamente do que os animais de controle.

Superação psicológica
Os resultados sugerem que as substâncias produzidas naturalmente pelo corpo que ativam os receptores do THC no cérebro (endocanabinóides) têm papel fundamental na superação psicológica de situações de estresse. Quando esses receptores são estimulados além do nível natural do organismo com os análogos de THC, o processo de superação é aumentado significativamente.

A quantidade do análogo de THC utilizada nos experimentos é cerca de 10 a 20 vezes menor do que a necessária para sedar os animais. “Portanto, numa perspectiva para futuros testes em humanos, esses efeitos ‘benéficos’ apareceriam, provavelmente, em doses substancialmente menores do que as habitualmente utilizadas pelos usuários de maconha”, explica o farmacologista Fabrício Pamplona, doutorando orientado por Takahashi e integrante da equipe que realizou o estudo.

“As memórias aversivas são muito importantes para a preservação da própria vida, mas em alguns casos podem gerar estresse e ansiedade desnecessários, que constituem um verdadeiro entrave na vida de muitas pessoas”, conta Pamplona. “Hoje, apenas os antidepressivos atuam contra isso, mas eles apresentam eficácia muito baixa. Por isso, procuramos por novos tratamentos contra esse distúrbio e o THC se mostrou um alvo potencial para o desenvolvimento dessa terapia”.

A equipe ainda pretende avaliar o papel dos endocanabinóides em algumas estruturas do cérebro, como a amígdala, hipocampo e o córtex pré-frontal. Estudos pioneiros em humanos que sofrem com estresse pós-traumático têm sido conduzidos por Raphael Mechoulam, pesquisador da Universidade Hebraica de Israel que isolou o THC em 1964 ao lado de Yechiel Gaoni. Mechoulam está avaliando os efeitos da substância em ex-combatentes.

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